Coluna do Fajopa – Rogério Profissional, Diretoria Amadora

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Depois de um longo tempo volto a escrever nesse espaço, pedindo desculpas ao Artur e ao colunista da quinta, pois se ainda tenho um espaço nesse nobre site que tenho no coração, esse espaço é na segunda feira, não na quinta-feira.

Mas tenho um bom motivo, de certa maneira quero recordar alguns momentos do passado desse site, quando foi criada uma seção em meados de 2004 que colocava dois grandes são paulinos discutindo algum tema polêmico, cada um com uma opinião contrária a do outro. Tal seção gerava ótimas discussões nos comentários e dois são paulinos que por várias vezes revezaram nesse espaço foram o All Bran (não lembro o nome verdadeiro dele) e o Rafael Bueno.

All Bran não ouço falar há muito tempo, escrevia muito bem e acreditava no futebol total, mas até hoje tenho a felicidade de conviver com o Rafael Bueno ou Rafinha, como conheço desde sei lá quando. Nos meus tempos de São Paulo Mania, Site Proibido e SPNet, ele passou de um pré adolescente para um adolescente que na lista de discussão surpreendia a todos com seus ótimos e coerentes textos. Ele e o Gerson Vazzoler formavam uma dupla da pesada, ambos muito jovens, que escreviam textos longos, cheios de conteúdo e respeitando a Língua Portuguesa.

Hoje o Rafinha é Jornalista, também formado em Educação Física e continua desfilando seus ótimos textos pela lista de discussão Insana, pelo Whatsapp e algumas vezes tem seus textos publicados lá no site do Juca Kfoury, como aconteceu com o texto que quero comentar hoje.

O que mudou muito no Rafinha é que como jornalista ele tem um poder de síntese maravilhoso e soube adaptar os ótimos conteúdos que sempre trouxe a esses novos tempos. Isso eu não aprendi, sou da velha geração a la Emerson Gonçalves e Damião, que como eu adoram um texto grandão. A coluna que indico a leitura a todos é essa abaixo e pretendo trazer uma outra visão a respeito:

http://blogdojuca.uol.com.br/2016/10/descoberta-a-formula-de-sucesso-dos-treinadores-de-futebol/

Basicamente eu e o Rafael pensamos de maneira semelhante em vários pontos. Temos uma Diretoria Amadora e a contratação de um inexperiente Rogério Ceni seria uma prova disso. Mas como não sou de escrever pensando no copo meio cheio ou meio vazio, vou analisar a notícia da semana sobre o enfoque da “novidade”.

Rogério Ceni sempre foi um profissional do mais alto gabarito como jogador e líder do São Paulo desde 1997, quando virou nosso goleiro titular com a saída do também mítico Zetti. Sempre demonstrou muita personalidade mesmo nos piores momentos, como na briga com Paulo Amaral e a suposta proposta do Arsenal. Na Seleção Brasileira não aceitou uma brincadeira nos tempos de Zagallo treinador em que os jogadores acabaram raspando seus cabelos, mas ele não gostou nem um pouco, não escondeu isso da imprensa e prejudicou sua carreira, mas lembro que Juca Kfoury e outros jornalistas sempre críticos à Casa Bandida de Futebol vibraram com seu posicionamento diferenciado.

Rogério também era tido como paneleiro na fase de seca do São Paulo e responsável por boa parcela da torcida pelos fracassos frequentes, apesar de já ser idolatrado pela maioria. Alguns poucos conselheiros que eu conhecia o rotulavam como mercenário, usando sua liderança e seu discurso em prol dos jogadores mais jovens para alcançar bichos maiores e outros benefícios. De qualquer maneira sendo isso verdade, não deixa de ser algo louvável ter ajudado tantos jovens jogadores.

Pelas torcidas adversárias o Rogério Ceni sempre foi rotulado como arrogante, mas pessoalmente posso dizer que ele é uma das figuras mais fantásticas que tive oportunidade de acompanhar nos tempos que acompanhei o São Paulo de forma próxima entre 1999 e 2005. Era sempre o último a sair dos vestiários, dava a cara para bater para a imprensa e atendia a todos que queriam falar com ele, tirar fotos, principalmente as crianças. Esse rótulo falso pode ser resumido no microfone captando o narrador Milton Leite chamando ele de “mala”.

A inteligência acima da média também ajudou nesse rótulo, assim como a contundência de sua opiniões que surpreendeu Marilia Gabriela, quando ele de certa maneira elogiou a época dos militares, sempre um tema tabu para os politicamente corretos. A passagem de um ótimo goleiro que também fazia seus gols, para o panteão dos deuses do futebol e o maior ídolo da história Tricolor, começou a ocorrer naquela cobrança de penais contra o Rosário Central. Depois daquilo veio o fantástico ano de 2005 e os títulos passaram a pipocar, Libertadores, Mundial, Paulista, um Tricampeonato do Brasileiro, Supercopa, Bolas de Prata, craque de campeonatos, gol nº 100 que julgo para um goleiro um feito tão impressionante quanto os mais de mil gols de Pelé, etc, etc.

Nesses mais de 20 anos de São Paulo o Rogério sempre esteve próximo dos treinadores que passaram pelo clube, angariando uma experiência que cursos na Europa ou estágios não chegam nem perto. Acompanhou Telê, treinou com Raí, Müller, Zetti, Válber, Palhinha, Ronaldão, entre outros monstros daquele período, viu de perto os tenebrosos times de 95 e 96, passou a ser titular atuando com jovens como Denílson e Dodô, foi campeão com Nelsinho Baptista, em 99 ficou surpreeso com Paulo César Carpegiani que tinha na zaga Wilson, Nem e Paulão, quase chegando na final do Brasileiro (SPFC jogou bem nos dois jogos contra o experiente Corinthians).

Em 2000 esteve ao lado de Levir Culpi e um ótimo time surgiu no primeiro semestre, azarado naquela final contra o Cruzeiro, mas campeão Paulista e com gol dele de falta. Em 2001 campeão do Rio-SP com Vadão de treinador e o surgimento de novos jovens como Kaká. Em 2002 veio a passagem de Oswaldo de Oliveira e uma campanha sensacional com 10 vitórias consecutivas, surgindo aqueles garotos da Vila classificados na oitava colocação que acabaram com nosso sonho.

Em 2003 a volta para a Libertadores com a dupla Rojas e Milton Cruz, em 2004 com Cuca a torcida sonhando com o Tri da Libertadores e em 2005 com Leão (2004 também) durante alguns meses e Paulo Autuori depois, 3 conquistas inesquecíveis. Veio o Tri brasileiro, um baita time em 2006 e 2007, o Muricybol de 2008 e depois várias decepções, novos garotos surgindo, o centésimo gol, um nº bem maior de treinadores passando pelo clube, mais e mais experiências, eliminações para brasileiros e em mata matas e apenas um título, da Sulamericana em que Lucas brilhou.

Escrevo tudo isso para dizer que acredito que Rogério Ceni irá ter uma carreira maravilhosa como treinador por seu perfil, sua inteligência, suas experiências, a busca da perfeição, entre outros motivos, muito maiores que cursos ou estágios que estão sendo ironizados agora. Difícil é ironizar o currículo dele como jogador e líder, aquele cara que chamava os jogadores na entrada dos jogos, sendo muito respeitado por todos.

Dessa forma ele já teria todos os requisitos necessários para assumir amanhã se a situação do São Paulo fosse outra, um clube financeiramente melhor, com um elenco de maior qualidade, sem a pressão de títulos, que a cada temporada torna-se cada vez mais forte. Não entro nesse papo furado que ele pode perder com a torcida a devoção que ela tem por ele caso não se dê bem como treinador. Zico ainda é um ídolo para o Flamengo, Falcão também é para o Internacional, Leônidas já foi treinador do São Paulo nos anos 50 e olha o Monstro que ainda é o nosso Diamante Negro.

Se a Diretoria Tricolor fosse honesta, chegaria ao final do ano e diria a verdade para a torcida e conselheiros, que no ano de 2017 não teremos contratações de impacto, queremos trazer poucos jogadores para posições realmente carentes como a lateral esquerda, a meia e comando do ataque. Estamos atrás de um treinador que saiba trabalhar com garotos, pois temos pelo menos uns quatro que merecem muitas chances já no começo de 2017. Queremos montar um elenco para que ele possa frutificar no decorrer do ano, mas pensando em 2018. Se algum título vier, ótimo, mas estamos trabalhando em busca de um trabalho de longo prazo, recuperando o clube financeiramente e tecnicamente dentro de campo.

A Diretoria pediria o apoio do torcedor, relembrando os jovens times de 84 e 85 dos Menudos e o que eles representaram para o futuro Tricolor, surgindo Müller, Silas e Sidney, descobertos por um desconhecido Cilinho. Pessoalmente vejo nos treinadores brasileiros que apenas um deles teria os requisitos para fazer esse trabalho, seria o Dorival Júnior, que parece que vem sendo fritado na Vila pela queda do time santista na reta final do brasileiro e pela eliminação na Copa do Brasil.

Como com certeza nossa Diretoria não terá novamente essa coragem, imagino que Rogério Ceni realmente esteja sendo cogitado para 2017 e pode até dar certo, mas não acho que ele vá chegar dando o apoio que nossa base necessita, pois ele quer vir para vencer e pelas entrevistas que deu ao longo dos anos vai buscar isso com jogadores experientes.

É isso, um texto enorme para de certa maneira concordar com o Rafael Bueno que o Rogério não está preparado para assumir nosso time, mas vejo que ele estaria preparado para assumir se nossa situação fosse outra.

E você torcedor, o que pensa do futuro do nosso Tricolor, com Rogério Ceni como treinador ou não?

UMA RECORDAÇÃO

Em 2001 no auge da briga entre Rogério Ceni e Paulo Amaral eu fazia parte do site São Paulo Mania, sendo totalmente de oposição, contra Paulo Amaral, José Dias e a tal Juventude Tricolor que dominava o clube. Na volta da derrota na Copa dos Campeões que poderia nos levar para a Libertadores, fomos recepcionar Rogério Ceni no Aeroporto de Cumbica com uma faixa que trazia a seguinte inscrição:

“ROGÉRIO CENI PROFISSIONAL, DIRETORIA AMADORA”

Será que mudou alguma coisa daquela época para os tempos atuais caro são paulino? Acho que regredimos para aquela época, fruto da arrogância de Juvenal e da herança que deixou para a gente com o nome de Carlos Miguel Aidar.

Que 2017 seja um ano melhor, com ou sem Rogério Ceni…

 

Por Fábio José Paulo (FAJOPA) – [email protected]

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