Coluna do Fajopa – O Muro

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Nessa última semana uma palavra esteve em alta no noticiário, seja aqui na cidade de São Paulo, nos EUA, México ou Guatemala.  A palavra muro, sejam os de concreto que se tornaram cinzas, sejam os com grafites, com pichações e quem sabe com vegetação como é uma das ideias da Prefeitura. Nos EUA o muro, que já existe desde Bill Clinton, separando as fronteiras de EUA e México ou separando as fronteiras do México e da Guatemala, que a imprensa finge que não existe.

Na sexta-feira a FIFA instituiu um muro, não o de concreto que dominou o noticiário, mas um muro imaginário que separa grandes campeões até 2000 dos que surgiram após 2000. Apesar do texto de anúncio tentar ser delicado com o assunto exaltando os campeões anteriores, é uma decisão patética e que vai na contramão do papel que a FIFA sempre teve desde os anos 60, não como organizadora (sempre foram a UEFA e Conmebol e a partir de 1980 em parceria com a Federação Japonesa), mas como avalizadora da competição, tida em anos anteriores como a antecessora das competições realizadas em 2000 e regularmente a partir de 2005, tanto que em diversas matérias dentro do próprio site da FIFA em 2005, o São Paulo era tratado como bicampeão mundial até se tornar tri contra o Liverpool.

O marco inicial ou linha imaginária deu-se no Brasil em 2000, um torneio estranho gerado pela “honesta” Traffic de J. Hawilla, com critérios para lá de questionáveis e que reuniu duas equipes do país sede (o que nunca aconteceu em nenhuma das outras 12 edições a seguir), uma que foi campeã da Libertadores em 98 e a outra que era a atual campeã brasileira. Durante anos no site da FIFA o campeão mundial de 2000 eram dois, o Corinthians e o Boca Juniors. O modelo de 2000 só voltaria em 2005, por incrível que pareça no mesmo Japão de outrora e com o mesmo principal patrocinador de antes, a Toyota.

O Palmeiras, que já não tinha mundial antes da canetada da FIFA, foi o grande prejudicado nesse torneio de 2000, pois era o atual campeão da Libertadores e deveria estar no torneio no lugar de qualquer um dos dois clubes brasileiros, mas sua força nula nos bastidores e os interesses escusos que chegam até os dias de hoje, com estádios construídos de maneira fraudulenta para a Copa e que estão na linha de mira da Lava Jato, fizeram com que a equipe de Scolari fosse alijada da competição.

J Hawilla, Blatter, Volcke, Ricardo Teixeira, Marin, Del Nero, entre outros, não entraram para as páginas policiais à toa, ajudaram a transformar a FIFA e CBF em instituições ainda mais corruptas do que já eram, que hoje movimentam bilhões em negócios, o que explica Copas organizadas em países como a Rússia ou como o Catar. Representam feudos como na política nacional, espelhando os velhos coronéis da política que dominam o cenário político em diversos Estados brasileiros.

A FIFA é um clube de privilegiados que detém o poder em federações nacionais e que sempre se negaram a modernizar o futebol, mas que ganharam muito dinheiro com ele, filhotes de Havelange, que ampliou o nº de seleções na Copa do Mundo, o que agora também faz Infantino o atual/futuro ditador, sabe-se lá com quais objetivos. Enquanto isso minimizar os erros de arbitragem com imagens torna-se algo sempre lento de ocorrer, com os primeiros passos sendo dados no último Mundial.

Palmeiras e o Santos se deram bem com a decisão sem muitos critérios da CBF em equiparar torneios dos anos 50 e 60 com os brasileiros pós 1970, mas essa decisão da FIFA é tão absurda que transforma o Santos de Pelé, o maior time de todos os tempos, em uma equipe sem mundiais. É patético.

Com uma canetada a FIFA fez com que não só o Santos de Pelé desaparecesse do rol de campeões mundiais, mas também o Ajax de Cruyff, o Flamengo de Zico, o Grêmio de Renato Gaúcho, o Milan de Arrigo Sacchi, o São Paulo de Telê Santana, o Boca Juniors, o Nacional, o Penarol, entre outras equipes que chegaram lá, que passaram pela barra de ganhar campeonatos continentais dificílimos e que enfrentaram times difíceis em um ou dois jogos como ocorria até 1979.

O Flamengo que em um mês ganhou 3 títulos e que no final do ano passado teve um especial bem interessante no Esporte Espetacular sobre esses 30 dias incríveis ou o São Paulo de 92 que foi para o Japão em meio a disputa do Paulista contra o Palmeiras e ganhou os dois títulos, são dois exemplos dos sacrifícios feitos para a conquista do Mundo. Em 92 assisti ao jogo na Rosas de Ouro ao lado de meus primos Renato e Alexandre, e depois fomos para a Paulista comemorar, tomada de são paulinos do Paraíso até a Consolação, uma festa inesquecível.

Mas acho interessante que a decisão nem tenha tido a repercussão que eu imaginava, seja entre a mídia ou até mesmo entre os torcedores. Quem trata o futebol de maneira séria, sem clubismo e respeitando a história de todos os clubes, sabe que essa decisão da FIFA é um muro fácil de derrubar ou pular. Pelé, Cruyff, Zico, Renato, Van Basten, Raí, entre muitos outros, é muita gente boa para driblar esse muro e muita história reunida em todos esses clubes.

Que a FIFA se foda!!!

Fábio José Paulo (FAJOPA) é economista, tem 42 anos, passou por São Paulo Mania, Site Proibido e SPNET (de 2003 à 2006), é pai da Thaís e escreve nesses espaços todos as segundas-feiras.

 

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