Terças Tricolores – A Transição Não É Fácil

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A base do São Paulo, sediada na cidade de Cotia, região metropolitana da cidade, é uma referência para o país em como tratar, treinar e cuidar dos jovens. No Centro de Formação de Atletas (CFA), treinam as categorias infantil, juvenil e júnior do Tricolor.

Todos os atletas da base são-paulina recebem acompanhamento pedagógico, médico e odontológico. Além disso, o São Paulo mantém convênios com escolas da região, garantindo o acesso dos jovens à educação e acompanhando o desempenho escolar de cada atleta, que tem à sua disposição atendimento individualizado e aulas de reforço. A estrutura oferecida pelo tricolor é, em resumo, fantástica. O sonho de todo pai que quer que o filho seja jogador e estude e o sonho de toda criança que deseja seguir o caminho do esporte.

Mas uma pergunta fica no ar: por que, com toda essa preparação e estrutura, os meninos não vingam direto no time profissional?

E, para quem gosta de discutir o futebol, existem muito mais motivos do que imaginamos para que isso não aconteça. Longe de dizer que “eles pipocam” ou “não tem potencial” para jogar no clube e coisas do tipo. Não são essas as razões que impedem um bom talento de vingar.

O treinador campeão olímpico, Micale, chegou a dizer para a ESPN o seguinte: “As pessoas querem resultado imediato, não estão dispostas a esperar esse processo de um jogador tardio, que muitas vezes é talentoso, mas acaba se queimando algumas etapas. O ideal é ir colocando o menino aos poucos, sabendo que ele vai amadurecer no tempo dele, que vai passar pelas 10 mil horas e daqui a pouco vai conseguir estar no nível do restante”. Ou seja, como tudo na vida, os meninos precisam ser preparados para atuar no profissional.

Nessa última etapa da vida futebolística a cobrança é diferente. O físico é diferente, velocidade diferente, estádios diferentes, imprensa em cima e cobrança da torcida. Será que eu, você ou qualquer conhecido se viraria bem com essa pressão? Não tremeríamos em nenhum momento? Nos abateríamos com perseguições (tipo Kaká e Lucão)?

Mais do que isso, a sociedade mudou. Antes o futebol era jogado na rua, com habilidade pulsando e talentos surgindo em todo lugar. Hoje, com medo da violência e tudo que envolve nossas crianças, muitos pais não deixam que a bola corra na rua, mas em condomínios fechados e escolinhas de futebol, reduzindo o universo de possibilidades.

Além disso, claro, existe a negligência de clubes em buscar o talento que está na periferia. O Micale também falou disso: “Antes a gente formava jogador com 19 ou 20 anos. Atualmente essa média de maturação de um jogador subiu para 23 ou 24 anos. Isso gera consequências na hora de se lançar um jogador dentro de um grupo profissional, onde já tem atletas maturados em toda sua constituição física, psicológica e tática”.

E vários outros fatores trabalham CONTRA o surgimento dos talentos: o medo dos treinadores em perder o emprego, a necessidade dos resultados no curto prazo, o medo de “queimar” o jogador e por aí vai. E o que acontece? O talento trava! Vejam que, no nossos caso, ao que tudo indica, os jovens estão sendo bem trabalhados.

Caio, Tavares e Araújo são titulares incontestáveis da base, que ainda forneceu Militão, L. Fernandes e Shaylon, sendo que esses precisam de “mais horas” para se adaptarem e realizarem bem seus trabalhos. Não adianta cobrar a entrada desses meninos se, nós enquanto torcedores, não saberemos respeitar seus erros. O maior engano é fazer algo parecido com o Lucão que, de fato, errou bastante no passado, mas vem trabalhando com humildade e recuperando seu futebol.

Além disso, é fundamental que eles convivam com caras como o Pratto e Lugano: profissional ao extremo, dedicado e, claro, um GRANDE jogador. Essas influências, como em qualquer segmento da vida, vão ser importantes para a formação de todos eles.

Falando da preparação em geral, a ideia de padronizar o estilo de jogo da base para o profissional é bastante interessante. É algo parecido com o que o Barcelona faz, instalando um padrão de jogo em toda a espinha do clube. É mais fácil o atleta subir e saber em que posição vai jogar e a chance de erro é minimizada.

Acho que o São Paulo, pelo menos nesse 2017, está trabalhando bem com os meninos. Claro que, por não serem jogadores 100% prontos, eles vão oscilar. Erros, atuações ruins e partidas sofríveis vão acontecer, mas eles precisam do nosso apoio para deslanchar. Não é sempre que surgem Lucas, Gabriel Jesus e Neymar na base dos clubes.

O futebol é mais complexo do que “põe o moleque, ele aguenta correr”. O universo ao redor desses meninos precisa ser favorável para o resultado ser o esperado. Afinal, quem não se deslumbraria sendo titular de um time gigante com 19 anos? Eu, talvez, perdesse o foco também! Mas isso não é um crime, é aprendizado.

Apoiemos nossa base, eles são o futuro desse time!

É isso!

Dúvidas ou reclamações?

@Abroliveira ou [email protected]

Abrahão de Oliveira é jornalista, formado pela Universidade Metodista de São Paulo, dono da @spinfoco, são-paulino e tem o sonho de cobrir um mundial de clubes com o clube do coração. 

ATENÇÃO: O conteúdo dessa coluna é de total responsabilidade de seu autor, sendo que as opiniões expressadas não representam necessariamente a posição dos proprietários da SPNet ou de sua equipe de colaboradores

Comentários

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2 COMENTÁRIOS

  1. O problema chama-se grana. E o empresário é o causador do conflito.
    O empresário quer fazer dinheiro rápido, ele não se importa se o garoto tem futuro ou não, se vai se machucar, se sua família precisa de algo etc…A grana impera, e cada vez mais cedo o empresário consegue mandar o garoto para Europa, seja lá onde for, quem paga leva. Os caras tem um grande poder de convencer times europeus e conseguem virar a cabeça do garoto e de sua família mostrando uma vida boa fora do Brasil e com grana.
    Enquanto o Brasil não criar formas de manter os garotos aqui nosso futebol vai virar um mercado fornecedor, vamos ficar mandando garotos para ganhar dinheiro e trazer da Europa jogadores mais velhos que muitas vezes não deram certo ou que estão em fim de carreira.