Ele conviveu com fama de ‘bad boy’ e diz que nunca foi valorizado pelo SP

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UOL

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Ex-zagueiro Nem hoje é técnico nas categorias de base do Paraná

  • Ex-zagueiro Nem hoje é técnico nas categorias de base do Paraná

Ronaldo Francisco de Lima, o Nem, ficou no São Paulo entre 1993 e 2001. Não conseguiu vingar no clube tricolor, mas o mesmo não aconteceu nos times por qual passou durante este período, por empréstimo: foi campeão da Série B pelo Paraná, em 2000, e foi um dos líderes do Atlético-PR na inédita conquista do Brasileiro, em 2001. Mas qual o motivo que fez o ex-zagueiro não alcançar o mesmo sucesso com a camisa tricolor? De acordo com o próprio Nem, a fama de ‘bad boy’ que conquistou por sair e aproveitar a noite – e o apreço por uma cervejinha nas folgas – fizeram com que o São Paulo não o valorizasse como deveria.

Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o hoje técnico do time sub-17 do Paraná defende a vida boêmia para os jogadores – desde que com moderação e sem prejudicar o trabalho – e aponta certa hipocrisia por parte da imprensa e também dos técnicos com os quais conviveu.

“A minha trajetória no São Paulo sempre foi complicada, e eu não falo por causa do clube São Paulo. É que algumas pessoas da imprensa não gostavam ou não viam o que eu fazia, então eu me irritei muito com isso, porque eu era campeão e voltava para o São Paulo e ninguém dava valor. Todas as vezes que eu saí do São Paulo e fui emprestado eu fui campeão, e sempre que eu voltava era sempre aquela desculpa: ‘Pô, mas o Nem faz bagunça, mas o Nem é isso, o Nem é aquilo, o Nem é bad boy’, e eu falava: ‘Pô, eu nunca machuquei ninguém, nunca fui pego em exame antidoping, nunca ninguém viu eu brigar com alguém, como é que eu sou bad boy’? Então ficou esse rótulo e não era legal; eu paguei o preço por este rótulo. Eu nunca neguei para ninguém que eu bebia. Eu tomava a minha cerveja e sempre levei isso comigo: não preciso parar de fazer as minhas coisas para ser campeão, eu preciso me dedicar no que eu faço de melhor. Eu nunca faltei a treinos, nunca deixei de treinar, nunca parei de jogar, nunca parei de viver. Deus me abençoou e eu consegui fazer tudo que eu queria: poder me divertir, poder jogar futebol e ser campeão, então, graças a Deus, deu tudo certo”, diz.

Eu paguei o preço por este rótulo. Nunca neguei para ninguém que eu bebia”

Flavio Grieger/Folhapress

De acordo com Nem, a ordem para frequentemente emprestá-lo a outros clubes partia dos técnicos, que informavam aos presidentes a vontade de não contar com o jogador. Ele ainda lamenta o fato de não ter sido mais aproveitado no São Paulo mesmo tendo boas atuações – e sendo campeão – pelos outros times parta os quais era emprestado.

“A gente conhece um monte de jogador que faz a mesma coisa e fazia, mas ninguém sabe, né? [risos]. Ainda mais na nossa época. Quando vinham me perguntar eu respondia: ‘estava, sim [bebendo]’; ‘mas você não pode’. E eu falei: ‘Como eu não posso? Por que eu não posso? Eu estou de folga, não tenho que trabalhar amanhã’, e com isso o São Paulo me emprestava. Me emprestaram várias vezes. E todas as vezes que me emprestaram eu fui campeão, e o São Paulo nunca me deu valor. Quando eu chegava e falava com o presidente eu dizia: ‘Se vocês não querem renovar me empresta porque eu não vou ficar aqui sem jogar’. Todo presidente que sentava comigo falava: ‘Cara, por mim você ficaria, mas a gente contratou um treinador que não quer você aqui’, e eu falava: ‘Então me empresta’. O Telê Santana foi o cara que mandou me comprar, e eu fiquei quatro anos com o Telê e com o Muricy. Esses dois me queriam sempre no time, mas tinha treinador que não. Por exemplo, contrataram o Dario Pereira, o Levir Culpi, o Nelsinho Batista… ‘Ah, mas o Nem bebe, o Nem faz aquilo’. ‘Pô, mas o cara acabou de ser campeão’; ‘Ah, mas eu não quero’. E aí os presidentes me emprestavam, e ainda bem que eles me emprestavam, senão eu não tinha sido campeão [risos]. É fácil ser campeão no São Paulo; o difícil é ser campeão no Atlético-PR, Sport, Paraná Clube…”, acrescenta.

Todas as vezes que me emprestaram eu fui campeão, e o São Paulo nunca me deu valor”

Nem citou até Neymar como exemplo para defender que um jogador de futebol pode, sim, ter uma vida normal, desde que não abuse na noitada, não falte aos treinos e trabalhe com responsabilidade.

“Eu acho que o futebol é muito ingrato em relação a isso. Pô, o atleta não pode tomar uma cerveja, não pode estar no restaurante com a sua família, não pode ir numa festa, não pode estar num pagode, não pode estar num bar… O que é que tem a ver? O atleta tem que ter vida também. Eu vi uma entrevista do Neymar esses dias e ele está correto. O que ele joga, e joga bem, não falta a treino, trabalha… Qual o problema de ele aproveitar um pouco da vida? Eu não vejo problema nisso, não. É o que eu falava para eles na época: ‘Pega a folha lá e vê quantos dias eu faltei em treinos: nenhum dia. Vê quantos dias eu cheguei bêbado em treino: nenhum. Vê quantos dias eu fiquei fora de jogos: nenhum. Então não tem o que falar para mim. Se você pegar 100% dos jogadores no Brasil, 80% bebem, mas ninguém fala. E eu não escondia, por que vou me esconder? Eu não estou fazendo nada de errado, eu estou na minha folga”, defendeu-se.

Se você pegar 100% dos jogadores no Brasil, 80% bebem, mas ninguém fala”

Aos 44 anos, Nem diz deixar claro aos seus comandados os prejuízos que o álcool pode provocar na vida de jogador de futebol, como o encurtamento da profissão. Ressalta, porém, que é totalmente viável jogar em algo nível e ter sucesso na profissão mesmo aproveitando a noite.

“Eu costumo falar o seguinte para eles: ‘Façam o que vocês acham melhor, mas façam conscientes. Eu conto toda a minha história para eles… Eu poderia até hoje jogar bola com 44 anos, mas eu optei por quê? Para viver a minha vida intensamente e ganhar o que eu pude ganhar. Tem dois caminhos, como o meu pai falava: ‘Você segue o caminho que acha melhor para você’, e eu segui o meu. Cada um vai fazer a sua trajetória. É claro… Se você não consumir álcool durante o futebol você vai durar mais, vai jogar até 40 anos. Se você consumir você vai parar como eu parei, com 35 anos. Isso eu deixo bem claro para eles. Agora, eles que vão escolher o caminho que querem. A única coisa que eu peço para eles: o treino é 9h, o treino é 9 horas; o treino é 3h da tarde, é 3h da tarde. Atrasou comigo está ferrado, por que? Porque o professor Telê fazia isso comigo: ‘Começa a ganhar dinheiro, compra uma casa para os seus pais, compra apartamento para você. Ganhou mais dinheiro, compra um carro’. Me ensinaram a ser assim, tanto que o meu filho joga no Paraná com 12 anos e já sabe fazer isso”, completa.

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PORTUGAL FICOU SURPRESO POR AINDA NÃO CONHECÊ-LO

Quando eu fui para Portugal [Sporting Braga], com 32 anos, os caras falaram: ‘Como é que você estava no Brasil até agora e a gente não viu’? E eu falei: ‘Porque todo mundo falava mal de mim, simplesmente por isso’. E eu fiquei cinco anos lá e consegui fazer o Braga se tornar o que é o Braga hoje. Fui quatro vezes para a Uefa, uma para a Champions Legue, então eu não me arrependo do que fiz.

GENINHO O ENTENDIA MUITO BEM

Eu e o Geninho demos muito certo. Ele foi o meu treinador no Botafogo de Ribeirão Preto quando eu era jovem. Depois foi o meu treinador em 2000, quando fomos campeões da segunda divisão, e depois em 2001, campeão brasileiro pelo Atlético PR. Então a minha relação com o Geninho era aberta. Eu chegava para o Geninho e falava: ‘Geninho, nós vamos jogar no sábado, então eu vou beber na segunda e na terça-feira a gente se concentra’, e não tem problema nenhum. O Geninho sabia que podia contar comigo. ‘O Nem vai tomar a cerveja dele na segunda e na terça-feira, na quarta, ele para para jogar no sábado’. O Geninho falava: ‘Se você jogar bem, não faltar a treino e não me prejudicar em nada, o problema é seu, não meu, é você que estará acabando com a sua vida, não sou eu’, e o Geninho era bem claro com isso. O Geninho acreditava em mim. Ele falava: ‘Faz o que você sabe fazer de melhor que é liderar os caras e fazê-los ganhar. Se você ganhar eu não caio, simples assim. E, graças a Deus, deu tudo certo.

MELHOR LÍBERO DO PAÍS?

Isso deu muita confusão pelo seguinte: a gente foi campeão brasileiro em 2001, em cima do São Caetano, e vieram me perguntar o seguinte: o que eu achava deste título. Nós fizemos 30 e poucas partidas… ‘Eu fui campeão brasileiro, você tem noção o que é ser campeão brasileiro? Num clube que nunca tinha sido campeão brasileiro’. Aí o repórter falou: ‘Eu não tenho noção’, e eu falei: ‘Mas eu tenho, eu sou campeão e sou o melhor libero do Brasil, porque eu fui campeão’. Quando você está numa olimpíada e ganha uma medalha você é o quê? É o melhor, então pronto, e foi isso que eu falei para quem me perguntou… E ele ainda disse: ‘Você não pode falar isso’, e eu: ‘Por que não’? Por que eu não posso falar se eu fui campeão brasileiro? Se eu fui campeão, ninguém foi melhor que eu, você concorda? Então me explica porque eu não posso falar, é simples assim’. Eu só fui verdadeiro e fizeram uma polêmica através disso. Eu fui o melhor líbero, o Gustavo, que jogava do meu lado, foi o melhor zagueiro, o Alexandre, que jogava de lateral, foi o melhor lateral e assim sucessivamente e ponto final. ‘Ah, os seus amigos não assumem’. Mas eu assumo e ponto.

SÃO PAULO ERROU AO CONTRATAR ROGÉRIO CENI

O Rogério é meu amigo, e o São Paulo errou em contratar o Rogério Ceni, porque o Rogério deveria estar na categoria de base do São Paulo assim que ele parou de jogar futebol. Primeiro se faz um trabalho na base e depois pega o profissional. O Rogério Ceni não seria tão cobrado como ele foi. A cobrança em cima do Rogério, por ser o Rogério, por ser o Mito, foi maior do que em qualquer outra pessoa. O Rogério não tinha essa bagagem de ter uma categoria de base no currículo, e as pessoas encheram muito o saco do cara, então o São Paulo errou já nessa época.

SÃO PAULO BRIGA ATÉ O FIM, MAS NÃO CAI

Se você ver o time do São Paulo, é um time que tem bons jogadores, mas não tem um grupo, por isso que o Dorival Junior está sofrendo. Hoje eu me coloco na posição do treinador: ele tem um elenco grande, de bons jogadores, mas não tem um grupo, e se você não tem um grupo fechado e nas mãos, você vai perder, você não vai ganhar, é simplesmente isso. Agora, cair eu penso que não cai porque tem times bem piores que o São Paulo. Vai ficar brigando até o fim, mas cair, não, o São Paulo é muito grande, o São Paulo não pode cair, é um clube correto, é um clube que paga em dia, um clube que te trata bem. O São Paulo foi um dos melhores clubes em que trabalhei, então eu jamais posso imaginar que o São Paulo pode cair. Torço muito para o São Paulo não cair, devo muito ao São Paulo, o São Paulo me mostrou muita coisa em toda a minha carreira, em toda minha trajetória. Torço muito mesmo, de coração, para não cair.

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