Memórias Tricolor #25 – Chutou é gol

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A Revista Placar foi lançada em 1970 e desde então sempre foi leitura obrigatória para os torcedores apaixonados, e na edição número 130 de 08/09/1972 a matéria “o campeão do Brasil” descreveu assim nosso personagem de hoje: “um centroavante que fica andando pelo campo, e de repente, com um chute maluco, mete um gol”…

Antônio Ferreira nasceu na cidade de Bauru (SP) no dia 10 de agosto de 1942, iniciou sua carreira no Noroeste de Bauru e em fevereiro de 1963 estreou pelo Santos onde fez história, e mais tarde foi para o São Paulo onde conquistou um grande feito, estamos falando do lendário Toninho Guerreiro.

Filho de dona Rosa e seu Arthur, desde cedo Toninho sofreu com a insistência de sua mãe que não aceitava seu filho jogando futebol e sempre que qualquer bola caísse em seu quintal munida de um machado nas mãos transformava a bola em retalhos de couro ou borracha, para ela futebol era coisa de gente desocupada.

Somente aos finais de semana Toninho podia exercer sua paixão, pois seu pai a quem definia como “Pai Herói, estava em casa e assim garantia que nenhum machado agisse, e assim esse ídolo cresceu jogando na várzea sempre acompanhado de seu Arthur, um atento e apaixonado por futebol.

Seu Arthur queria tanto que o filho jogasse futebol que ainda menino o levou para o Santos Futebol Clube, que não o aceitou na ocasião e então aos 15 anos Toninho começou no amador do Noroeste de sua cidade. Em 1960 fez sua estréia no profissional e logo veio o sucesso pelo time do interior e os dirigentes santistas pagaram 100.000 cruzeiros pelo passe de Toninho.

Os primeiros anos no Santos foram difíceis, afinal o Santos tinha um time fantástico e em sua posição nada menos que Coutinho, assim ficava sempre na reserva e entrava faltando apenas dez ou quinze minutos para o final do jogo e pouco conseguia mostrar seu futebol. Apenas no ano seguinte conseguiu mostrar um pouco de seu futebol e deu início a um período de conquistas pelo Santos. Em 1966 conseguiu ser artilheiro do campeonato paulista pela primeira vez com 24 gols.

Enquanto isso o São Paulo Futebol Clube seguia com todos os esforços na construção de sua maior obra, o Estádio do Morumbi que sugava todos os recursos e fazia com que a torcida fosse amargando seu período de falta de títulos e conquistas, mesmo com alguns bons jogadores os elencos não tinham competitividade e ao todo foram 13 anos sem uma grande conquista.  Em 1969 as obras chegavam ao final, em breve o Estádio estaria pronto e o Tricolor poderia voltar a ter um grande elenco, então entre julho e agosto daquele ano a diretoria do São Paulo procurou o Santos e apresentou seu interesse em Toninho Guerreiro.

Porém como sempre o São Paulo enfrentava um forte adversário, o Corinthians que também queria Toninho. A diretoria santista estava satisfeita com o jogador e um dos ídolos de sua torcida, então os diretores confiantes que os rivais não pagariam muito caro pelo jogador iniciaram as negociações, ao final o São Paulo pagou 800 mil cruzeiros, um valor tão alto que um diretor santista afirmou: “Vendi o Toninho por 800 mil cruzeiros. Foi um ótimo negócio”.

Realmente foi um ótimo negócio, a torcida santista acreditava que sem estar ao lado de Pelé o craque seria apenas um simples jogador e não o artilheiro matador de sempre. Mas o São Paulo tinha Gerson, e logo Toninho faria a diferença e o Santos pagaria cara por vendê lo, pois o seu maior astro ficou sem um companheiro ideal, enquanto o São Paulo tinha seu goleador.

No São Paulo, Toninho Guerreiro provou a todos ser um verdadeiro goleador, foi determinante para acabar com a seca de títulos Tricolor que durava 13 anos, já no primeiro ano foi o artilheiro do paulistão com 13 gols e o sonhado título Tricolor, feito que iria se repetir em 1971 sendo o São Paulo BiCampeão.

Em 1972 o São Paulo terminou o Paulista invicto, porém na final enfrentou o Palmeiras no Pacaembu em 3 de setembro de 1972, mas o jogo terminou 0 a 0, Toninho não conseguiu furar a defesa alvi-verde, mas foi artilheiro do campeonato com 17 Gols. Com isso nosso centroavante foi pela terceira vez o artilheiro do Campeonato Paulista, mas seu maior recorde é ser Pentacampeão Paulista de Futebol, feito que nem Pelé tem. Foram três pelo Santos 67, 68, 69 e dois pelo São Paulo em 70 e 71. Toninho Guerreiro mostrou ser decisivo, e somente ele ganhou 5 títulos paulistas seguidos.

Ao todo pelo Tricolor Toninho Guerreiro jogou 170 jogos e marcou 85 gols. Pelo Santos foram 373 jogos e 279 gols o que ainda faz dele o quarto maior artilheiro do time da Vila. Pela Seleção Brasileira teve apenas 2 jogos e marcou 4 gols, porém não participou da Copa de 1970, vivendo uma de suas maiores desilusões.

Estava em seu auge, era Tricampeão pelo Santos, negociado com o São Paulo por um alto valor, demonstrou toda sua raça e competência, sua participação na Copa era certa, era o grande centroavante do país, porém o país vivia a época dos governos militares, e o Presidente Médici tinha grande simpatia pelo jovem atacante Dario do Atlético Mineiro, que mais tarde seria conhecido como “Dadá Maravilha”. A equipe médica da Seleção diagnosticaram uma estranha sinusite, e então coube a João Saldanha informar Toninho Guerreiro sobre o corte, o que o próprio Saldanha reconheceu mais tarde ser um grande ato de covardia contra o jogador e contra ele mesmo por ser o portador da notícia.

Toninho Guerreiro jogou no São Paulo até 1973 e depois de rápidas passagens por Flamengo e Operário (MS) retornou ao Noroeste onde encerrou sua carreira. Jogou em time de veteranos e exibições de Show Ball pelo Brasil. Ao se aposentar definitivamente, viveu em São Paulo até falecer trabalhando em uma oficina no tradicional bairro da Lapa na Zona Oeste de São Paulo.

Com o tempo ganhou peso, gostava da boemia e fumava muito, fatos que foram minando sua saúde. Em janeiro de 1990, sentiu uma forte dor de cabeça, era um derrame cerebral e veio a falecer em 26 de janeiro aos 47 anos. Morria um dos mais competentes centroavantes que o Brasil teve em todos os tempos, morria Toninho Guerreiro.

 

Gustavo Flemming, 40 anos de amor ao SPFC, é empresário no segmento de pesquisa de mercado e consultoria em marketing.

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