Terças Tricolores – Subir Para O Profissional Não É Uma Tarefa Fácil

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E, novamente, em um período em que o time não conquistou títulos, jogou para não cair e fez uma campanha aquém do esperado, alguns setores da nossa torcida começa a bradar aos quatro ventos pelo melhor aproveitamento da base.

Sob o argumento de que “espinho que nasce para furar já nasce com ponta”, começa-se a exigir o melhor aproveitamento de atletas como Brenner, Liziero, Cipriano e vários outros nomes desconhecidos para os torcedores que não acompanham o futebol de base do Tricolor.

Trata-se de um tema recorrente e que, cada vez mais, faz parte das rodas de discussão dos torcedores. E a minha opinião é, digamos, conservadora quanto a isso. Antes de resolver lançar todos os jogadores em campo é preciso pensar no contexto, para não fazermos bobagem.

É praticamente uma unanimidade que os atletas são mal preparados. Em um país onde as oportunidades boas de trabalho são escassas, o futebol acaba virando uma possibilidade real para quem é mais humilde o que gera, por tabela, jogadores que não possuem um grau de educação elevado.

Além disso, psicologicamente, são jogadores que não têm uma base entender o que estão fazendo, onde querem chegar e qual o caminho para isso. E esse despreparo começa a estourar no profissional, quando a grana é maior, a exigência é maior e as possibilidades de tentação são, também, maiores. É uma situação que vai muito além das quatro linhas.

Mas esse não é o problema inteiro. É apenas parte dele, afinal, como você exige que um atleta como o Brenner já trombe com zagueiros do porte de Juan, Mina, Pablo, etc e saia vencedor? É uma questão de físico e costume de atuar entre os profissionais. Claro que, alguns torcedores que usam a exceção como regra, citarão Neymar, Lucas e Gabriel Jesus. Mas esses atletas são comuns?

Fora o Lucas, que se acomodou em Paris, os outros dois são totalmente fora da curva e, fenômenos, brilham por si. E, MESMO ASSIM, são caras preparados para o sucesso, não desviando do caminho, como outras joias fizeram (Denner, Adriano Imperador e tantos outros exemplos que tinham talento e se perderam).

É preciso cuidado com esses jogadores para não queimarmos atletas que, na base são destaques, mas que não conseguem render no profissional. Quem não lembra de Sérgio Motta, Diogo (lateral esquerdo), Auro, Foguete, Schmidt, etc? Eles não deram certo por qual razão? Por não ter potencial (como era o caso de Lucão, Aislan, Uvini, etc) ou por não terem sido bem preparados?

A pergunta que fica agora é: como fazer para a transição ser a melhor possível? Bom, darei uma explicação, baseada em falas de profissionais da área e colocarei algumas opiniões minhas, enquanto jornalista e um espectador de futebol.

Uma das matérias mais interessantes que já li sobre o tema fica por conta do jornalista Renato Rodrigues, da ESPN, que está nesse link aqui. Nesse texto ele consegue trazer uma entrevista com o Micale que, bom técnico no profissional ou não, fez um grande trabalho na base da seleção.

Separo aqui, para leitura, alguns trechos que considero interessantes:

“Tem atletas que apresentam um desenvolvimento mais tardio, isso é normal de se deparar. Nós que trabalhamos com isso temos o dever de estarmos atentos para não desperdiçar um talento. Quantos meninos ficam perdidos no meio do caminho? Posso citar o Bernard (ex-Atlético-MG e atualmente na Shakhtar-UCR). Ele quase não jogava nas categorias inferiores do Atlético. Mas fizemos por lá um trabalho de verificação. A gente via que era um menino com um desenvolvimento tardio, que era baixo, mas tinha qualidade… É importante ter corpo, mas a gente também precisa ver a qualidade. Isso tem que ser acima de qualquer coisa. E isso sem conhecimento, dificulta muito a subida de um jogador para equipe principal. As pessoas querem resultado imediato, não estão dispostas a esperar esse processo de um jogador tardio, que muitas vezes é talentoso, mas acaba se queimando algumas etapas. O ideal é ir colocando o menino aos poucos, sabendo que ele vai amadurecer no tempo dele, que vai passar pelas 10 mil horas e daqui a pouco vai conseguir estar no nível do restante – explica Rogério Micale, ex-treinador da Seleção Brasileira Sub-20”.

“Eu costumo sempre falar que, em qualquer área, em qualquer profissão, temos que ter 10 mil horas de prática para exercer alguma função com plenitude. E hoje em dia o processo formativo no futebol recuou. É muito pouco falado sobre isso. Mas isso se veio muito em função de não termos mais tantos campos de várzea, da insegurança nas ruas… Isso limitou muito a prática do futebol, algo que tínhamos em abundância. Se jogava futebol em todos os lugares. Hoje os pais já não deixam seus filhos jogando bola na rua, a não ser que seja um condomínio fechado. E geralmente não é daí que surgem grandes jogadores. Normalmente os talentos estão em regiões mais pobres”.

“Com isso, o número de horas de prática no esporte diminuiu e o atleta chega ao Sub-20 com menos horas que antigamente. Antes a gente formava jogador com 19 ou 20 anos. Atualmente essa média de maturação de um jogador subiu para 23 ou 24 anos. Isso gera consequências na hora de se lançar um jogador dentro de um grupo profissional, onde já tem atletas maturados em toda sua constituição física, psicológica e tática – completa o treinador”.

De maneira geral, o técnico campeão olímpico considera que nós ultrapassamos barreiras, fases e ensinamentos aos garotos, opinião que compartilho. É imprescindível que os garotos passem por um período de adaptação, treinando apenas com os profissionais. Já viram algum jogo da base? Viram alguns estádios caóticos que eles atuam?

É completamente diferente, do gramado aos adversários, da cobrança ao salário e, dependendo da categoria, até o tempo de jogo é diferente. Não dá para cobrar de um menino de 17 anos que assuma uma responsabilidade imensa e conduza um time a algum caneco.

Como eu disse, alguns fenômenos, de fato, conseguem fazer isso, mas para conseguir um fenômeno, quantos jogadores de qualidade são perdidos? O Hernanes, nosso maestro, precisou ser emprestado antes de brilhar no SPFC.

O Raí, maior 10 da nossa história, chegou tão jovem aqui que precisou de muito tempo para entender o que precisava fazer e se tornar o jogador que se tornou. Até o Muller, um dos maiores pontas que já passou por aqui, teve esse processo de adaptação. Em absolutamente TODAS AS PROFISSÕES do mundo, nós passamos por uma fase de transição.

Qual a chance de, por exemplo, um estudante de jornalismo sair da universidade e já assumir a direção da ESPN/Globo/Uol para conduzir profissionais mais velhos e experientes rumo a um avanço significativo? Se a sua resposta foi NENHUMA, por que razão com o jogador de futebol tem que ser diferente?

Temos bons atletas na nossa base? Sim, nós temos, mas eles precisam de experiência, vivência, coisa que fizemos, por exemplo, com o Maidana. Foi ao Paraná, fez uma boa campanha, foi útil, demonstrou seu valor e pode voltar ao SPFC para ser reaproveitado e, assim, gerar um ganho esportivo antes do financeiro.

Vivemos um momento conturbado da nossa história. Sabemos que, quando o futebol europeu vem para cima, eles levam o talento antes mesmo dele se destacar e se desenvolver, como foi o caso do Neres (não havia o que fazer, a proposta era muito alta para um atleta que jogou 10 jogos).

Mas, também, é preciso se preocupar com esses talentos. Dar um aumento considerável, a multa ser altíssima e oferecer a estrutura para que ele se desenvolva fisicamente, tecnicamente e psicologicamente.

Ano que vem, acredito, os atletas que subiram esse ano estarão mais preparados. Tavares, Araruna, Fernandes, Shaylon, Brenner, passarão por uma pré temporada com um treinador que é capaz de ajudá-los e tendem a evoluir (se não se perderem na noite e outras tentações).

É imperativo que o clube os apoie, veja a possibilidade de emprestá-los para clubes que possam e tenham um estilo de jogo compatível com a função deles e que cuide desses jovens.

Eles são o futuro do clube e já mostraram, na base, potencial. Se bem trabalhados, podem render alguma coisa.

É isso!

Dúvidas ou reclamações?

@Abroliveira ou [email protected]

Abrahão de Oliveira é jornalista, formado pela Universidade Metodista de São Paulo, dono da @spinfoco, são-paulino e tem o sonho de cobrir um mundial de clubes com o clube do coração.

Comentários

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3 COMENTÁRIOS

  1. Oa danoninhos precisam de jogadores de referência ao lado deles para se desenvolverem. Em um time cheio de refugos ficaria difícil até para o Pelé.

    E como já começamos a contratar estrelas como Kingnaldo e Jean o magnífico, esses moleques vão ter que se virar sozinhos