Preparador de Ceni espera explicação para o fim de 16 anos de parceria

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UOL

Flávio Latif e José Eduardo Martins

Terminar um relacionamento nunca é fácil. Nem sequer saber o real motivo para o rompimento pode tornar a situação ainda mais difícil. Haroldo Lamounier vive esse dilema. Depois de 16 anos como uma das pessoas mais próximas de Rogério Ceni, o preparador de goleiros aguarda uma ligação do técnico para saber qual a razão de ter sido demitido do Fortaleza, em junho deste ano. Depois disso, Rogério foi para o Cruzeiro, já sem Haroldo, e acabou perdendo emprego em 46 dias.

“Ele não me deu justificativa nenhuma. Nós terminamos a partida contra o Cruzeiro lá [no dia 12 de junho], e teria a parada da Copa América. Ganhamos o jogo e me despedi do pessoal. Desejei boa folga para o Rogério. Aí, quando eu saí de lá, peguei algumas coisas e fui ao aeroporto. Cheguei aqui em casa e recebi o telefonema do pessoal do Fortaleza que me avisou: ‘Rogério não quer mais trabalhar com você.’ Perguntei se tinha algum motivo, e me falaram que não sabiam. Falaram que era para eu ir para lá e acertar as coisas. Até hoje não tive mais nenhuma ligação dele”, contou Haroldo, em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Apesar da situação, Haroldo diz não guardar mágoas do ex-companheiro. Morando na Grande São Paulo, ele espera receber propostas de clubes para seguir a carreira de preparador de goleiros. Até agora, ele teve algumas ofertas, mas não avançou as negociações.

José Eduardo Martins/UOL

“Eu tenho o seguinte propósito: quando o ciclo acaba, acabou. Foi assim no São Paulo e no Fortaleza, de onde também sai vitorioso. Não tem como voltar mais, é seguir a vida. Amanhã ou depois aparece um time e vou tranquilo. Quero trabalhar por mais alguns anos. Tenho condição e currículo para isso. Não ficou nenhum ressentimento do Rogério. Eu sempre torci e continuo torcendo por ele. Quando ele era atleta, já falava que ele seria um bom treinador”, disse Haroldo.

Vida com Ceni goleiro A relação dos dois começou no São Paulo, antes de o arqueiro conquistar os seus principais títulos pelo clube (Brasileiro, Copa Libertadores e Mundial). Após passagem pelas categorias de base do Tricolor paulista, Haroldo foi alçado para o time profissional em 2003. “O time contava com o Rojas e Milton Cruz no comando e eu fui convidado para participar desta comissão técnica. Já na primeira semana foi muito bom. O Rogério e os outros goleiros me receberam muito bem. Fomos fazendo aquele laço de amizade muito bom. O São Paulo não participava da Libertadores e garantimos a vaga. Depois, começamos a ter aquela série de conquistas”, contou Haroldo.

Relação com Ceni técnico O dia a dia de Haroldo com Rogério Ceni como técnico já era bastante diferente. No São Paulo, o treinador fez questão de chamá-lo para integrar a comissão técnica. Vale destacar que, após a aposentadoria do arqueiro, o preparador passou a trabalhar nas categorias de base. Carlos, titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1986, tinha ficado com o cargo. Com a chegada de Ceni, em 2017, Haroldo voltou para o profissional. Já no Fortaleza, ele também foi convidado para reeditar a dupla. Porém, ao contrário dos demais integrantes da comissão técnica, não morava perto da praia para ficar mais próximo do clube. Na rotina de treinamento, os dois também se afastaram um pouco. “A relação que eu tinha com o Rogério treinador era a mesma que tive com o Muricy [Ramalho] e Paulo Autuori [ex-treinadores do Tricolor Paulista]. Eu ficava na minha e esperava que eles me pedissem uma informação. Então, nós deixamos um pouco de lado toda aquela proximidade que eu tinha com ele. Ele chamava mais os auxiliares dele, com os analistas de desempenho. Teve um dia em que ele falou até que estávamos perto, mas ao mesmo tempo longe. Eu falei para ele ficar tranquilo porque a responsabilidade dele agora era maior. Acho que também pesou isso. No Fortaleza não tive tanta proximidade”, explicou Haroldo.

Outros lados A reportagem procurou o Fortaleza para saber sobre a saída do preparador de goleiros. O clube alega que, da mesma maneira que Rogério Ceni teve liberdade para montar a sua comissão técnica, foi possível fazer alterações no decorrer da sua gestão. A dupla teria discutido sobre sistema de jogo durante um treinamento antes da partida contra o Cruzeiro, a última antes da pausa para a Copa América. Já no período de folga para a realização do torneio continental, o treinador falou que não queria mais contar com Haroldo em sua comissão. Então, um profissional do departamento de recursos humanos teria entrado em contato com o preparador, e Guto Albuquerque fora promovido para assumir a vaga. De acordo com pessoas próximas a Rogério Ceni, por sua vez, o treinador teria indicado Haroldo para trabalhar no São Bento, de Sorocaba. A troca teria sido feita porque, na opinião do técnico, Guto já estava no clube há dez anos e teria capacidade para exercer tal função.

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