Memórias Tricolor – O custo da soberba

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Em janeiro de 1930 um grupo de abastados fundaram um novo Clube, furto da união de dois clubes da elite paulistana, o Club Athlético Paulistano e a Associação Atlética das Palmeiras. O novo Clube nasceu com estádio próprio a Chácara da Floresta, no bairro da Ponte Grande, atual Ponte das Bandeiras. Ambos os Clubes tinham grande importância no cenário paulistano já tendo sido ambos campeões Paulista, o novo Clube seria um sucesso. Para desenhar o novo Escudo e Uniforme chamaram o estilista alemão Walter Ostrich. Em razão do Estádio da Chácara da Floresta, o Clube recebeu a alcunha de São Paulo da Floresta.

Já no primeiro ano o Clube tinha um forte elenco e foi vice-campeão Paulista, em 1931 o 1º título, em 1932 Campeão do Torneio Início e sempre competitivo sagrou-se vice-campeão Paulista em 1932, 1933 e 1934, em 1933 foi vice-campeão do Troneio Rio-São Paulo, estava, portanto formado um Clube vencedor, e que seria o maior do pais, seria, se não fosse por um péssimo detalhe. A diretoria vislumbrada com o sucesso entendeu ser necessário adquirir uma suntuosa sede, era preciso dar um passo grande para solidificar o novo Clube e então um pequeno palácio foi adquirido por um valor exorbitante o Palácio Trocadero na Rua Conselheiro Crispiniano no Centro da Cidade. Era o começo do fim.

Com seu campo próprio, um elenco de jogadores que valia muito e agora o Palácio Trocadero como a sede social, as contas do Clube não fechavam e logo o preço da soberba chegou. Em maio de 1935 alguns dirigentes resolveram fundir o Clube com o Clube de Regatas Tietê e assim o São Paulo da Floresta entrou em processo de extinção em 14 de maio de 1935.

Homens abnegados, apaixonados pelas cores Tricolor não descansaram até conseguir em 16 de dezembro fundar o atual Clube, tendo a frente o Tenente Porphyrio da Paz o São Paulo Futebol Clube resurgiu e assim foi lavrada o início da ata:

“Aos dezesseis dias do mês de dezembro de mil novecentos e trinta e cinco, nesta cidade de S. Paulo, às vintes horas, numa das salas do prédio nº 9ª, da Rua Onze de Agosto, perante grande número de pessoas interessadas que atenderam a um convite feito por intermédio da imprensa pela Diretoria do Grêmio Tricolor, realizou-se a assembléia que teve por fim fundar o São Paulo Futebol Clube…”

Diferente do Clube de 1930, o São Paulo de dezembro de 1935 não era formado por homens abastados, e os primeiros anos foram de muita dificuldade, e o Clube ganhou a alcunha de “Clube da Fé” do Jornalista Tomás Mazzoni.

Eram anos difíceis, diferente do Clube anterior, os títulos ficavam para os rivais e o torcedor via um revezamento entre Corinthians e Palmeiras. O São Paulo somente conseguiu chegar ao topo do campeonato em 1943, no ano em que a “moeda caiu em pé”. Esse foi o 1º de muitos, pois na década de 40 o São Paulo conquistou 5 Campeonatos Paulistas.

Na década seguinte o Tricolor conquistou 2 Campeonatos Paulista, sendo que em 1957 revolucionou o futebol brasileiro com o treinador Béla Guttmann que com suas ideias modernas e genialidade foi adotada pela Seleção Brasileira em 1958.

Na década de 60, a prioridade do São Paulo Futebol Clube foi a construção de seu maior patrimônio o Estádio Cícero Pompeu de Toledo, assim os títulos não chegaram, mas o Tricolor não fazia feio, em agosto de 1963 o Santos de Pelé fugiu de campo, o que podemos considerar que vale mais que um título.

Na década de 70, com o final das obras do Estádio as conquistas retornaram e o São Paulo conquistou 3 títulos Estaduais e o Campeonato Brasileiro de 1977. A década seguinte foi Tricolor, foram 5 Estaduais e o Brasileiro de 1986, o time era um esquadrão com jogadores inesquecíveis com: Gilmar, Zé Teodoro, Oscar, Dario Pereyra, Nelsinho, Bernardo, Müller, Sillas, Careca, Pita e Sidney depois Edivaldo. Foram os anos dos “Menudos do Morumbi”.

A década de 90 é inesquecível para qualquer torcedor Tricolor, entre 1991 e 1993 foram Paulista, Brasileiro, Libertadores e dois Mundiais, foram outros diversos torneios, no final da década o Campeonato Paulista de 1998 o São Paulo sobrou em campo.

Como descrever o década seguinte? Dois Campeonatos Paulista (2000, 2002 e 2005), Torneio Rio-São Paulo em 2001, e o sonhado Tricampeonado da Libertadores e Mundual em 2005. O mundo voltou a ser Tricolor, era o auge, porém o São Paulo ainda conseguiu uma façanha até então inédita no Campeonato Brasileiro, ser Tricampeão em 2006, 2007 e 2008. Assim o São Paulo foi o 1º Clube a ser Tricampeão Brasileiro, o Primeiro a chegar a 5 conquistas (2007), e conquistar o direito a “Taça das Bolinhas” e ainda ampliar a vantagem em 2008.

Os anos seguintes foram mais difíceis, porém em 2012, o São Paulo conquistou a Copa Sul-Americana sobrando em campo, na final o adversário Tigre da Argentina fugiu no intervalo após um primeiro tempo com final de 2 a 0.

Porém acabou por ai… os anos seguintes tem sido marcados por nenhuma conquista, poucas disputas, muitas decepções, diversas trocas de técnicos, montagem e desmontagem de elencos, jogadores de nomes que pouco apresentam, negociações pouco transparentes, presidente afastado, diretorias que pouco respeitam as tradições Tricolores visando muito mais o bem próprio e por ai diante.

O torcedor Tricolor ano a ano vai sofrendo, vendo o passado glorioso cada vez mais distante, e os adversários disputando e conquistando títulos. O São Paulo Futebol Clube vai a cada ano se apequenando, chegando a flertar com rebaixamento no campeonato nacional em alguns anos. O grande desejo e grito da Torcida é:

Devolvam o nosso São Paulo Futebol Clube, Salve o Tricolor Paulista!

Esta Coluna é dedicada ao grande Treinador Cilinho que dirigiu o São Paulo nos anos 80, montando times competitivos e vitoriosos. É de Cilinho o mérito dos “Menudos do Morumbi”.

Cilinho faleceu em 28 de novembro de 2019 aos 80 anos em sua cidade natal Campinas, interior de São Paulo. Obrigado Professor!





Gustavo Flemming, 40 anos de amor ao SPFC, é empresário no segmento de pesquisa de mercado e consultoria em marketing.

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