Febre Tricolor – Chegou a hora

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Morumbi Lotado

O dia 5 de abril é esperado com ansiedade pela torcida. Não era para ser momento de decisão na Copa Libertadores, mas tornou-se em função das exibições do São Paulo até aqui no torneio. Chegou a hora, o momento mais importante do ano? Não! Importante mesmo é que Edgardo Bauza encontre o padrão tático da equipe que tanto busca, para retomarmos o caminho das vitórias e títulos.

O Tricolor começou taticamente o ano com a herança de Osório: 4-3-3, ofensivo. Pontas invertidos, sem obrigação de marcar e estilo de jogo tudo-por-tudo. No papel era isso, na prática, não. Desde a chegada de Doriva a mentalidade foi modificada. Apesar de invertidos, os pontas deveriam colaborar com os marcadores e não só fazer uma sombra, mas seguir o lateral do rival até o final do campo.

Osório trazia algo inédito para o São Paulo. Os pontas invertidos (Pato e Michel Bastos) não tinham essa obrigação compulsiva de marcar, eram liberados para criar. Alexandre Pato, em fase exuberante, teve o melhor momento de sua carreira. A mentalidade era parecida com o que Bayern e Barcelona praticavam na época. A diferença do São Paulo foi ter um sistema defensivo sem solidez, encaixado apenas com Breno dando liga à defesa.

O resultado do fraco sistema defensivo no período Osório foi de muitos gols sofridos, enquanto o encaixe como equipe não vinha. Apesar das dezenas de gols marcados. Doriva não tinha a mentalidade de Osório, e fez com que os pontas invertidos marcassem, transformando o 4-3-3 em 4-2-3-1: um erro. Erro que Bauza seguiu cometendo, no início desta temporada.

Agora, com Bauza, os pontas invertidos eram Centurion e Michel Bastos, remanescendo o 4-2-3-1 de Doriva. O poder de fogo era bem menor. A saída de Alexandre Pato e Luis Fabiano, como bem ressaltou Bauza, representou um déficit de 40 gols marcados pela dupla na Temporada 2015. Bauza percebeu esses problemas, a mudança tática e muitas vezes desinverteu os pontas.

Ao modificar a posição dos pontas o 4-2-3-1 parecia ter mais sentido. Mas não teve. O São Paulo seguia com problemas de “profundidade”, aquela que os comentaristas questionam . Algumas vezes a lentidão no passe por falta de confiança foi inimiga. E é em torno dessa profundidade que Edgardo Bauza desenvolve o esquema. Nos últimos três jogos, sacou os pontas e colocou dois meias bem abertos.

Elegeu Michel Bastos e Daniel para ocupar a posição desses meias abertos. A falta de ritmo deste, algumas vezes tem exigido a entrada de Kelvin no segundo tempo, e até de Lucas Fernandes no lugar de um dos volantes, sobretudo no segundo tempo, para ampliar o poder de fogo, quando o menino entra praticamente como um segundo atacante. A nova mentalidade faz com que os laterais tenham participação intensa. Mena entendeu totalmente. Ele tem ido à linha de fundo sem medo de ser feliz.

Na prática, o São Paulo começou a empatar, sofrendo poucos gols. Vencendo algumas vezes. Edgardo Bauza garimpa como detalhista um método de trazer o equilíbrio pra equipe. Antes de criticá-lo, temos que entender o que ele quer fazer. O objetivo é dar padrão de jogo ao time, independente das características do jogador que está em campo. É com esses três meias, no momento, que ele tenta buscar isso.

Entendo perfeitamente a insistência de Bauza em aplicar o seu estilo de jogo. Conhecendo a característica de cada jogador do elenco do São Paulo, entendo que Wilder Gisao como ponta direita e Michel Bastos como ponta esquerda, seriam o ajuste da profundidade, porque chegam na linha de fundo visando quem está centralizado. Seria a forma de dar liga num 4-2-3-1. Num cenário mais arrojado, meu entendimento é de colocar Kardec e Calleri girando no ataque e aproveitando as entradas na área de Ganso, num 4-3-1-2.

Bauza pensa diferente. Quer padrão de jogo, independente das individualidades. E está mais certo que eu. Mas vai pelo caminho mais longo.

Individualidades:

Falarei de dois jogadores.

A briga entre torcida organizada e Michel Bastos é uma besteira. Michel Bastos é dos três jogadores de mais qualidade do elenco do São Paulo, poderia ser titular hoje da Seleção Brasileira. Em boa fase, Michel é um dos melhores jogadores do Brasil. As críticas da torcida têm abalado sua confiança e feito mal ao próprio São Paulo. Parte da torcida entende que a “pressão” seja o caminho pra ele render. Ao meu ver atrapalha.

Na vitória do São Paulo sobre o Oeste por 2 a 1, Thiago Mendes foi substituído. Reclamou para os auxiliares técnicos e mostrou descontentamento com a posição do treinador. Na coletiva de imprensa, Edgardo Bauza deu uma tacada de mestre. Disse que gosta de jogadores que tem “caráter”. Para nós brasileiros, jogadores que tem “brio”. Ruim, diz o treinador, seria o atleta ser substituído e não se importar. Ele vai acordar Thiago Mendes!

Histórias da SPNet: 

Aproveito esse momento para uma breve apresentação. Fui um colaborador da SPNet no ano de 1997, e me juntei aos administradores desse site durante uns três anos. Por conta de impecilhos, estive longo período ausente. Como a SPNet está completando o seu vigésimo aniversário fui convidado pelo Rei Artur, aquele da “Palavra da Corte”, para escrever essa coluna aos domingos e relembrar os velhos tempos.

Brevemente informo que a SPNet é resultado de um trabalho de juntada de dados do amigo Fernando Alécio, com quem dividirei esse espaço aos domingos. Ele também fará uma coluna nesse dia pelo que me passaram. No ano de 96, ao lado de Luiz Eduardo Martínes (que atualmente mora nos Estados Unidos, não sei a country), Alécio fundou esse site. Desde o princípio já contou com a participação de figuras importantes como Artur Couto, Nilton Júnior e Rodrigo Barão, Lennon Onofre, entre outros.

O que marcou pra mim no início da SPNet foi a interatividade com os usuários, que chamou até a atenção do clube. Nos fóruns, listas de emails e nos próprios comentários do site a participação era massiva. Dois usuários me chamaram atenção: All Bran e Diego Ortiz. Esse último era rico em opiniões ortodoxas: como a de que o São Paulo deveria trazer o zagueiro da seleção holandesa Frank de Boer e, como não poderia competir com os europeus devido aos salários, poderia oferecer engradados de cerveja e mulheres. Essa é uma das pérolas dele.

Agradeço à SPNet por ceder esse espaço. Se este é o “Termômetro da Torcida Tricolor”, esta coluna será a Febre Tricolor. Essa é a minha temperatura em relação ao São Paulo.

Contato:

@RealVelame ou [email protected]

Alexandre Velame é Jornalista e Advogado, são-paulino há quase três décadas e usuário da SPNet desde 1997.

 

ATENÇÃO: O conteúdo dessa coluna é de total responsabilidade de seu autor, sendo que as opiniões expressadas não representam necessariamente a posição dos proprietários da SPNet ou de sua equipe de colaboradores.

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